sábado, janeiro 06, 2007

História engraçadíssima que encontrei na revista “Eco dos Sports”, de Dezembro de 1927, ilustrada com uma foto e a seguinte legenda: "Eduardo Azevedo , lançando um pombo correio que vai dizer a Belém da sua vitctoria por 2-0 sobre o Bemfica" - cuja (má) qualidade não me permite apresentar. O texto não está assinado, mas reproduz tão bem a alma belenense, que eu aproveito para homenagear a memória de meu pai e irmão, sócios já falecidos, do clube do Altinho.
(mais uma vez mantenho a forma de escrever, doutros tempos)
O FOOT-BALL e os POMBOS CORREIOS
Já nos referimos aos pombos que a rapaziada de Belem larga em pleno azul, após as suas victorias. Hoje, fazemos mais. Apresentamos o pitoresco duma fotografia em que se vê o popular Azevedo, findo o jogo com o Bemfica, abrir as mãos e atirar para imensidade a boa nova dum pombo correio, que levava o amavel segredo da victoria. . .
Bilhete curto, de caligrafia comovida e nervosa, ele ahi vai pelos ares fóra, sobre o coração da ave — pronto a tornar-se em foguetes e em vivas.. .
Ganhámos! Uma palavra apenas, a saber a lágrimas e a risos. A gente de Belem, á maneira antiga e desprezando os telefones—contenta-se assim, lá de longe, a olhar o céu anciosamente...
— Lá vem ! Lá vem !
Mas não é ainda. As desilusões sucedem-se. A's vezes são gaivotas vadias que vêm em raids por terra e iludem os que esperam... Pombos correios, isso sim...
Entardecera já. Ficára combinado largarem um pombo ao primeiro goal e á hora de acabarem os noventa minutos — ainda o ceu estava virgem das azas brancas da bôa nova.
Belem desesperava. O desafio estava dado como perdido—e todos se olhavam com tristeza. E quando finalmente, com sua fidelidade, generosa—o pombo surgiu, ninguem queria acreditar...
— Ganhámos ! Ganhámos !

São assim os entusiastas do grupo da praia. Querem ao seu club, como se quere a uma pessoa de familia. Amam-no e comovem-se, com os seus triunfos. Choram e afligem-se com as suas derrotas.
Belem é assim um club — que vive das almas...

Eduardo de Azevedo, grande pilar do grupo, a alma esforçada do team—é como todos, um entusiasta, um crente. Entrega-se corajosamente—e a sua vontade pode mais que tudo o resto. Quando ele joga só uma coisa vê e deseja a equipe azul. Enchê la de gloria e de triunfo. Pode estar arrazado, doente, fisicamente combalido, mas entra no campo e transforma-se. O pombo correio que parte – é sua fé realisada, cortando o ceu...

Explicam se assim os seus triunfos —a fé jâ não abala montanhas mas ainda mete bolas nas redes adversarias - Pépe é na linha avançada — o resto da vontade de Azevedo. Pépe realiza o sonho. Azevedo encarrega se a todo o custo de o manter.
A vida rola indiferente. A cidade debate-se nos seus conflitos intimos. Cada casa é uma ambição. Por toda a parte lutas desiguais, sonhos, quimeras—e indiferença. Uns dormitam, as mulheres à janela olham a vida, com placidez. Os gaiatos brincam nas ruas. Toda a aparencia é calma. Mas no azul a aza branca esconde o fremito, o esforço enorme e là vai velozmente a transportar a noticia anciosamente esperada. — Ganhàmos! Ganhâmos !
Quando Belem acaba um jogo, ha sempre lagrimas.
E' o club popular por excelencia — o Belenenses. O seu entusiasmo sincero e comovedor cheio de ingenuidade talvez — é assim, enorme como um gigante de alma primitiva ..
Sorri quando vence, define-se por expressões plebeias... Larga aos ceus e com entusiasmo, pombos correios quando vence —como se quizesse mandar a noticia ao mundo inteiro e confia sempre na victoria nesta frase risonha e popular—isto estâ como hade ir...
... São assim os Belenenses !

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1 Comentários:

Às 17:55 , Anonymous Anónimo disse...

Fantástico artigo de outros tempos.
Luís.

 

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