segunda-feira, maio 14, 2007

Campeonato das Ligas e de Portugal

O Campeonato de Portugal e os
Campeonatos das Ligas
Em razão de polémicas e dúvidas surgidas ao longo dos anos, sobre a validade do Campeonato de Portugal (CP) outorgar o título de campeão nacional e o antigo Campeonato das Ligas (CL) ter validade como campeonato nacional, convidei o meu amigo Paulo Claro, um estudioso das competições nacionais e distritais, desde a fundação das associações distritais, a elaborar um texto em que se esclarece definitivamente a forma como se disputaram as primeiras provas nacionais de futebol em Portugal.

A denominação do “Campeonato das Ligas” - tradução da palavra inglesa LEAGUE - aparece num tempo em que os termos ingleses do “football” eram muito utilizados em Portugal, daí baptizarem a prova desta forma para dizer que era uma prova em “poule”, ou seja, “todos contra todos”.
Como estes campeonatos tinham duas divisões, ficaram conhecidos como 1ª Liga e 2ª Liga.
No livro da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) "1º Centenário do Futebol Português - Os 75 anos da FPF" escrito em 1989 pelo jornalista Henrique Parreirão, vem bem explícita a situação do Campeonato de Portugal e dos Campeonatos das Ligas pois, a FPF facultou os seus arquivos para consulta. Assim quem ler este livro não poderá ter dúvidas quanto à atribuição dos títulos de Campeão Nacional e quais as provas que conferiam esse título!
A quem me diz que os CL é que davam os campeões nacionais, aconselho sempre uma leitura cuidada do livro atrás referido para esclarecimentos de ideias e, com os pensamentos livres de “clubites” e outros facciosismos, com a mente em contacto com os anos em que decorreram estas provas, fazer um raciocínio lógico da situação.
E tem resultado em cheio! Alguns amigos tiraram todas as dúvidas porque, vem tudo lá bem explícito com transcrições de Actas e Regulamentos de Provas.
Ora, segundo me foi ensinado na escola devemos sempre respeitar a lei, mesmo que não concordemos com ela! É certo que a própria FPF tem culpas no cartório por não assumir uma posição clara na altura mas, isso deve-se ao empolgamento que o CL criou, e também ao facto de grandes nomes do jornalismo da altura quererem fazer passar a ideia da importância destes campeonatos passando por cima da prova que dava o campeão nacional ou seja, o CAMPEONATO DE PORTUGAL.
Realmente o Campeonato da Liga e o Campeonato Nacional da 1ª Divisão foram disputados da mesma forma: em “poule” ou seja, no sistema de “todos contra todos”.
Mas o regulamento era diferente; porque o CL era uma prova extraordinária para estudar a viabilidade económica, uma vez que obrigava os clubes a deslocarem-se regularmente por todo o país, o que naquela altura era um empreendimento extraordinário.
O CP, no sistema de eliminatórias, era disputado após a realização dos campeonatos distritais, onde se apuravam os melhores, para a prova nacional e tinha o desígnio de encontrar o campeão nacional, de Portugal, obviamente!
A partir de 1934/35, o campeonato das ligas substituiu o apuramento distrital.
Nos relatórios da Federação Portuguesa de Futebol, pode ler-se: "clubes com direito a participar no Campeonato de Portugal: os oito clubes da 1ª Liga, os seis melhores da 2ª Liga mais o apurado das Ilhas, o que perfazia o total de 15 clubes.”
O clube vencedor do Campeonato de Portugal recebia uma cópia do troféu denominado Taça Portugal.
Taça cujo original está exposto ao público, na Federação Portuguesa de Futebol, e o qual serviu de modelo à actual Taça de Portugal.
O campeonato das ligas teve sucesso económico logo na primeira época e continuou a disputar-se na época seguinte logo a seguir aos distritais, como prova extraordinária! E o sucesso não foi só financeiro. A sucessão dos embates entre as melhores equipas nacionais empolgava o público de tal maneira que se considerou o campeonato das ligas, a mais importante.
Daí, que a imprensa começasse a considerar o vencedor da prova, CAMPEÃO DA LIGA - tal e qual os relatórios da FPF designavam.
Mais tarde, o famoso jornalista Ricardo Ornelas começou a defender nas páginas do jornal “Os Sports” que o vencedor da Liga é que era o campeão nacional.
Mas a verdade é que de acordo com os regulamentos, o Campeonato de Portugal é que apurava o campeão nacional, enquanto o campeonato das ligas continuava a ser uma prova secundária.
A grande remodelação dos Regulamentos das provas da FPF foram efectuadas em Agosto de 1938 durante um Congresso realizado para esse fim. Foi elaborado um documento histórico que explicava e justificava a nova Regulamentação e que a dado passo, entre outras coisas dizia: "PARA POR EM PRÁTICA TODA ESTA REALIZAÇÃO HÁ QUE ACABAR COM OS CAMPEONATOS DAS LIGAS E SUBSTITUIR O CAMPEONATO DE PORTUGAL DAS JORNADAS EM SUCESSIVAS ELIMINAÇÕES, POR UM CAMPEONATO DE MAIOR RIGOR E REGULARIDADE PELO SISTEMA DE «POULE» EM DUAS VOLTAS".
Perante isto não sei o que mais dizer…
Só, talvez acrescentar, que foi criada uma nova prova chamada TAÇA DE PORTUGAL que seria disputada nos mesmos moldes do antigo C.P. mas com finalidade diferente. Aqui já não era para apurar o Campeão Nacional mas sim, para que os clubes mais pequenos tivessem oportunidade para jogar com os grandes ou seja, para que haja a FESTA DA TAÇA.
Mais uma vez se chama a atenção para o que dizem os REGULAMENTOS DAS PROVAS pois, estes são a lei.
Lembremos a razão que “obrigou” a organização urgente do campeonato das ligas…
A seguir á vergonhosa derrota da Selecção Nacional por 0-9 contra a Espanha, começaram a levantar-se vozes contra a maneira como era disputado o Campeonato Nacional na altura (CP). Deviam fazer-se mais jogos contra equipas mais fortes. Ricardo Ornelas escreveu nos jornais que se deveria realizar uma prova em poule, como já se fazia em muitos países, para dar mais competitividade aos jogadores. Outras vozes se lhe juntaram e então a FPF que, também estava descontente com a situação, avançou para uma solução. Elaborar um projecto para um campeonato em “poule”. Esse projecto foi elaborado por Plácido de Souza, Ribeiro dos Reis, Cândido de Oliveira e Virgílio da Fonseca.
Mas havia muito receio por parte da F.P.F acerca da aceitação do público e sobre o aspecto financeiro da prova. Seria suficiente a receita para pagar as despesas? E o público iria assistir a tantos jogos? Portanto avançaram para este projecto com muitos receios. Sendo assim, nada melhor que fazer a experiência por isso deixaram escrito em acta "FICOU RESOLVIDO PROMOVER A TITULO EXPERIMENTAL OS CAMPEONATOS DAS LIGAS, 1ª E 2ª DIVISÕES, SEM PREJUÍZO DOS CAMPEONATOS DISTRITAIS, NEM DO CAMPEONATO DE PORTUGAL".
Isto indica claramente a subjugação das Ligas em relação ao CP e até aos Campeonatos Distritais!
Ora, se por esta altura já havia um Campeonato Nacional como é que podia existir outro!? É claro que essa questão nem se pôs, pois para isso, teriam de ser alterados os Regulamentos das Provas, coisa que só aconteceu em 1938…
Na 1ª época em que se disputou a 1ª Liga (1934-35) o clube vencedor nem direito a taça teve. Apenas foram entregues medalhas aos jogadores. Só a partir da época seguinte foi entregue uma taça. Penso, no entanto, que o FC Porto acabou por receber mais tarde o troféu referente ao primeiro campeonato.
Os CL eram sem dúvida provas oficiais da FPF mas os vencedores eram apenas considerados campeões das 1ª e 2ª Ligas nunca CAMPEÕES NACIONAIS ! Foram provas muito importantes para a actual estrutura do futebol Nacional pois, devido ao seu sucesso se pôde avançar para o modelo que temos hoje que foi introduzido em 1938-39.
No Relatório da FPF de 1936-37 vem escrito o seguinte: O Campeonato da Liga voltou a agradar sobremaneira e, dessa forma, não será possível dizer-se mais que estamos em período de experiências, pois a consolidação está feita. Seria um erro suprimi-la." Portanto, era uma prova que tinha sido feita para um determinado prazo e que afinal, superou todas as expectativas”
Temos que ver os campeões Nacionais a partir 1921-22 e não à posteriori. Temos que ver as coisas desde o início, não é hoje em dia olhar para trás e dizer que ficava melhor juntar os vencedores do CL aos vencedores da 1ª divisão e juntar aqueles do CP aos da Taça de Portugal. Isso é totalmente errado. E assim se criam confusões! Não se pode mudar uma lei, 50 anos depois, com efeitos retroactivos.
Nos Estatutos aquando da fundação da FPF constava precisamente a intenção de fazer disputar o CAMPEONATO DE PORTUGAL. Ora, venham agora dizer-me que a intenção não era a de apurar um CAMPEÃO NACIONAL!
É claro que sim! O povo queria saber quem era o melhor clube de Portugal, quem era o CAMPEÃO NACIONAL ! nos jornais da altura era precisamente assim que era intitulado o vencedor do CP.
E até, quando já se disputavam as Ligas os jornais faziam referência à final do C.P. como: "joga-se hoje para o título máximo de Portugal".
Lamentavelmente, a imprensa ignora o antigo campeonato de Portugal, como se não tivesse existido talvez para dar mais importância à I Liga. Muitos países começaram por organizar os seus nacionais dessa forma, como é o caso da Alemanha, até 1963.
Se, por acaso, as antigas Ligas fossem ganhas, por exemplo, pela Académica, Carcavelinhos, Belenenses e V. Setúbal, haveria tantos defensores da mentira instituída pela imprensa e defendida por fanáticos clubistas?
Paulo Claro

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quinta-feira, janeiro 18, 2007

Campeonato de Portugal e as Associações

O CAMPEONATO DE PORTUGAL
E A CRIAÇÃO DE ASSOCIAÇÕES REGIONAIS

Excerto da História dos Desportos em Portugal
A despeito da boa vontade dos dirigentes da União Portuguesa de Futebol e do desenvolvimento da imprensa desportiva, que já começava a ter aceitação em vários pontos da província, a organização de associações regionais em 1921 era escassa.
Só Lisboa, Portalegre e Porto, no continente, e o Funchal nas ilhas adjacentes, podiam orgulhar-se – que orgulho era – de haver olhado o jogo com a devida atenção, fundando tais organismos.
Uma tentativa no Algarve, em 1914-15, durara essa época; nova tentativa em 1917-18, nem tinha chegado ao termo da temporada, pois os vencedores não foram apurados, de sorte que o futebol português, no continente, quando da estreia de Portugal em partidas internacionais, com o encontro Espanha – Portugal em Madrid, a 18 de Dezembro de 1921, circunscrevia-as a muito pouco em quantidade e, em qualidade, apenas a Lisboa e Porto.
No Funchal jogava-se com certo tino mas, afastado da capital, pouca projecção no continente tinha obtido, conquanto a visita do Club Sport Marítimo em 1912 houvesse deixado satisfatória impressão das faculdades dos insulares.
A disputa daquela partida internacional do futebol português feita sem que houvesse ainda um torneio nacional para apuramento de um campeão nacional, torneio que em Espanha tinha começado em 1902 (e só dezoito anos depois o país entrara em competições internacionais), tinha colocado a nossa organização um tanto em situação de anomalia, pois, efectivamente, não fazia sentido que a escolha de um grupo internacional antecedesse o apuramento de grupos de clubes campeões do país.
A imprensa especializada já, timidamente e, portanto, sem insistência, havia sugerido a organização de torneios de tal natureza, mas a ideia germinara e desenvolvia-se mais na mente dos dirigentes e jornalistas, em conversas e em trocas de impressões, do que em artigos de jornal.
Em Portugal continental, em suma, o futebol que imediatamente antecedera o I Espanha – Portugal limitava-se aos campeonatos regionais de Lisboa e Porto, quanto a qualidade, e aos encontros entre as selecções das duas cidades, representando estas, à falta de melhor, as manifestações mais importantes do jogo, fora das competições regionais.
Ora os poucos torneios distritais eram por sua natureza isolados e os referidos matches Lisboa – Porto, embora muito proveitosos para o desenvolvimento dos melhores jogadores dos dois centros, vago beneficio poderiam criar para os restantes distritos, onde o futebol, valha a verdade, ia interessando a mocidade e ganhando cada vez mais adeptos.
A resolução de última hora, tomada quase apenas pelo secretário-geral da União Portuguesa de Futebol, em fins da temporada de 1921-22, época em que o Algarve fez terceira tentativa de organização regional e essa, finalmente, frutífera, de organizar o primeiro campeonato de Portugal, teve, portanto, a aceitação que merecia, pelo menos de uns centos de desportistas, que consideravam tal torneio como um direito das associações já organizadas e uma necessidade para a expansão nacional em que naturalmente se pensava.
O diferendo entre Porto e Lisboa, surgido quando dos preparativos do desafio Espanha – Portugal, em 1921, por susceptibilidades apresentadas pelos jornalistas nortenhos, teve até, com a resolução de se organizar o primeiro campeonato de Portugal, por convites especiais aos campeões das duas cidades, um ponto final adequado, pois que se dava aos jogadores do Norte como que a satisfação que o seu burgo procurava.
Este convite limitado aos campeões das duas cidades justificava-se, de resto, já por se ter feito tardiamente na época, já porque Portalegre e Algarve não teriam capacidade futebolística para competir.
Deu-se, no entanto, um caso curioso: a cidade do Porto exultou com a notícia da organização do campeonato, pois toda ela se considerava atrás da sua equipa representativa, ao passo que em Lisboa a satisfação não saiu, a bem dizer, do âmbito da massa associativa do Sporting; os demais clubes, interessados nos desafios que por essa altura se estavam a disputar com um grupo estrangeiro, como que se alhearam da contenda. Mas esta diferença de sentimentos voltou pelo tempo adiante, em relação a esta prova, a manifestar-se – vibração no público portuense e comodismo no lisboeta – a definir só por si como o bairrismo do Porto é diferente do de Lisboa, apenas por acidente posto em ebulição.
O primeiro campeonato de Portugal foi, como se disse, limitado aos campeões de Lisboa e Porto, respectivamente, Sporting Club de Portugal e Football Club do Porto.
Assentou-se em duas mãos, uma em cada cidade, e, se fosse necessário, por igualdade em vitórias ou em empates, terceiro jogo para desempate, sorteando-se o local do primeiro desafio e do decisivo.
Coube ao Porto ser local da primeira partida, e logo se verificou como a cidade queria ao seu campeão, pois o campo transbordou de público. Ganharam os nortenhos por 2-1, desafio disputado em 4 de Junho de 1922. O jogo decorreu em ambiente apaixonadíssimo, de que os lisboetas, no regresso, se queixaram amargamente.
A segunda mão, no Domingo seguinte, serviu para o público lisboeta, na maioria pertencente ao grupo interessado, reflectir os efeitos dos queixumes dos componentes do “onze” da capital.
Coube ao Sporting a vez de alcançar a vitória, por melhor score do que o do primeiro desafio: 2-0.
Com uma vitória para cada banda, tendo ambos os desafios transtornado o espírito dos espectadores e dos jogadores, é fácil compreender como despertou interesse o sorteio do campo para o terceiro jogo...
Foi de novo o Porto favorecido – mas o que se terá dito entre Sportingófilos, durante a viagem, e entre portuenses, aguardando os visitantes, talvez não seja muito fácil de imaginar...

I CAMPEONATO DE PORTUGAL
1921/22

Campeões Regionais

PORTO.........FootballClub do Porto
LISBOA........Sporting Club de Portugal
ALGARVE.....Sporting Club Olhanense
FUNCHAL....Club Sport Marítimo

Os campeões do Algarve e da Madeira não participaram por dificuldades organizativas e financeiras.

Final a duas “mãos” e desempate
(O vencedor teria de somar duas vitórias)

FC PORTO – SPORTING, 2-1
4-6-1922, Porto (Campo da Constituição)
Árbitro: Merick Barley (Inglês)
Marcadores: 0-1 Ramos (9), 1-1 Bastos (25), 2-1 Bastos (86)
FC Porto – Adolphe Cassaigne (Bel)
Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal.
Sporting – Charles Bell (Inglês)
Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Francisco Marques, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro.

SPORTING – FC PORTO, 2-0
11-6-1922, Lisboa (Campo Grande)
Árbitro: Montero (espanhol)
Marcadores: 1-0 Portela, 2-0 Pereira
Sporting – Charles Bell (Inglês)
Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, José Filipe e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro.
FC Porto – Adolphe Cassaigne (Bel)
Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Tavares Bastos, João Nunes e Alexandre Cal.

FC PORTO – SPORTING, 3-1 (a.p.)
18-6-1922, Porto (Campo do Bessa )
Árbitro: Neves Eugénio (Académico do Porto)
Marcadores: 1-0 Balbino (51), 1-1 Ramos (70), 2-1 Nunes (100), 3-1 Brito (102)
FC Porto – Adolphe Cassaigne (Bel)
Lino Moreira; Júlio Cardoso e Artur Augusto; José Mota, Velez Carneiro e Floreano Pereira; João Brito cap, Balbino Silva, Alexandre Cal, Tavares Bastos e João Nunes.
Sporting – Charles Bell (Inglês)
Amadeu Cruz; Joaquim Ferreira e Jorge Vieira; João Francisco, Filipe dos Santos e Henrique Portela; Torres Pereira, Jaime Gonçalves, Francisco Stromp cap, Emílio Ramos e José Leandro.

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História do Futebol em Portugal

Mais uma “estória” para a História do Futebol em Portugal
– ou como se afasta o público dos estádios.
Com a devida autorização, publicamos o editorial de Manuel Tavares,
no “O Jogo” de 17-1-2007

Recebi do senhor Adriano Freire uma carta que também endereçou ao presidente da Liga. Por ser uma visão tão pertinente e tão jornalística, quero partilhá-la com a comunidade de leitores de O JOGO. Como o texto integral não cabe neste espaço, resolvi transcrever apenas o relato dos factos.
"No passado domingo, desloquei-me à pacata Vila das Aves, apesar do tempo frio convidar mais a ficar em casa, sentadinho no sofá, aproveitando a brasa da lareira para petiscar um enchido, que é tempo deles, bem regado por um maduro que tenho em casa e que devo-lhe dizer é uma categoria (...) mas optei por juntamente com mais quatro amigos da sueca me fazer à estrada para viver as emoções do futebol ao vivo.
Chegados às Aves, automóvel arrumadinho, faltavam duas horas para o jogo, fomos comer uma bifana, beber um fino e entre o café e o cigarro discutir se o Quaresma já se tinha esquecido do penalty falhado com o Atlético e se o Professor Neca finalmente ia jogar ao ataque.
A uma hora e pouco do início do jogo fomos à bilheteira e tivemos que tirar o bilhete para a bancada central (20 euros!!!!!), porque os de 15 euros (atrás da baliza ) estavam "esgotados".
Porta nº 3, Bancada Central, assinalava o bilhete. Às 19h00 em ponto, já estávamos na fila para entrar na famosa porta nº 3, repito Bancada Central. Às 19h30, a 15 minutos do início do jogo, tínhamos andado pouco mais de 10 metros na fila, que crescia cada vez mais, com a paciência (nós, não a fila) de quem queria entrar. Às 19h45, começou o jogo e eu continuava na fila. Oito minutos depois, gritou-se golo no estádio, ao meu lado (ainda na fila) um senhor aí com o seu meio século bem conservado, de rádio no ouvido, animava o neto de 7, 8 anos, equipado com a camisola nº 8 do Lucho: "Olha Tiago, foi golo do Porto, foi o Lucho". O Tiago deu um sorriso e rapidamente voltou aos protestos por ainda estar cá fora. O avô bem tentava explicar-lhe o que não tinha explicação, principalmente num país que organizou o Europeu de futebol, que continua a ter cidadãos a (sobre)viver com ordenados pequenos e onde ir ao futebol é para os ricos ou para os "maluquinhos da bola". Eu faço parte dos últimos.
Um minuto para as 20 horas: chegou a minha vez de passar pelos seguranças que fazem as habituais revistas que, desta vez, nem sequer nos tocam e só perguntam "tem isqueiro?". Quem respondeu que sim tinha que o deitar fora ou, então, não entrava. Ou seja, era possível levar uma pistola, granadas e até isqueiros..., não podia era responder que sim quando lhe perguntavam, repito: "Tem isqueiro?" Às 20h00, 15 minutos depois do início do jogo, quando o resultado já marcava 0-1, estou finalmente naquilo a que ironicamente chamam estádio e com um bilhete de Bancada Central - 20 euros!!! Só que a Bancada Central estava repleta, e a bancada meio lateral, meio atrás da baliza também estava repleta. Fiquei a ver o jogo de pé, num pequeno patamar atrás da bancada, ensanduichado entre o Zé da Tasca (no final do jogo e como o Porto ganhou, o Zé ainda serviu uns nacos de presunto à malta) e a rede que delimitava o final da Bancada Central - 20 euros!!!”

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sexta-feira, dezembro 22, 2006

Sintese Histórica

Sintese histórica do Futebol Português

O primeiro jogo de futebol realizado em Portugal...

Terá sido disputado em Cascais (Outubro de 1888), organizado pelos irmãos Pinto Basto - Eduardo, Frederico e Guilherme - jovens entusiastas deste “sport”, aproveitando a bola que este último já em 1884 trouxera para Portugal, como recordação de estudante e praticante desportivo em Inglaterra.Três meses depois, disputou-se novo jogo entre uma selecção dos grupos que se exibiram em Cascais e uma equipa formada por ingleses. Escolheu-se um terreno em Lisboa, para que a propaganda do jogo pudesse chegar ao povo. Num terreiro situado no Campo Pequeno, onde depois foi construída a praça de toiros, marcaram-se linhas e puseram-se balizas. E fez-se o desafio, pois era assim que se designavam os jogos. E a seguir, muitos desafios — porque dia a dia, o futebol captava adeptos. Todos os jovens queriam experimentar a sensação de dar um pontapé numa bola. E assim começaram a surgir grupos e mais tarde clubes.

Os primeiros clubes...

O primeiro, foi o Club Lisbonense (1889), que teve origem no Colégio Lisbonense mais conhecido por Vilar e que terá sido fundado no Inverno de 1889. A seguir surgiu o Real Ginásio Club Português, já fundado em 1875, que também aderiu a este novo sport. O Carcavelos Club, constituído por trabalhadores ingleses do Cabo Submarino, era o mais forte e temido. Outros foram surgindo e desaparecendo, mas foram os grupos escolares que deram grande impulso à divulgação deste jogo: Colégio Vilar, Escola Nacional e sobretudo a Casa Pia, que viu nascer centenas de jogadores e mais tarde, dirigentes e treinadores.No Norte de Portugal também o futebol estendeu as suas raízes, através da colónia inglesa e do Oporto Cricket and Lawn-Tennis Club. O entusiasmo gerado por este novo jogo, levou, a que em 1894 se tenha disputado o I Porto-Lisboa com o alto patrocínio do Rei D. Carlos I.

Fundada a primeira Associação...

A organização clubista seria a raiz do desporto português e começou com o futebol. O agrupamento de entusiastas fez-se aqui e além, criando-se núcleos (clubes) cujo despique impulsionava o futebol. Em 1906 é organizado o primeiro torneio inter-clubes promovido por Sena Cardoso através da revista “Tiro e Sport”. Foi seu vencedor o Lisbon Cricket. O êxito deste torneio levou os clubes a criar um organismo que orientasse e coordenasse a crescente expansão da modalidade, e no ano seguinte, nasceu a Liga de Football Association que organizou dois campeonatos que tiveram como vencedor o Carcavelos Club.
Mas a Liga teve vida efémera, em 17 de Setembro de 1908 surge a Liga de Football Association, presidida pelo ilustre casapiano Dr. Januário Barreto, que promoveu mais dois campeonatos ganhos pelo Carcavelos Club e Sport Lisboa e Benfica.
O exacerbado clubismo, a indisciplina e a desistência dos clubes a meio das provas, levou à extinção deste organismo.Em 23 de Setembro de 1910 é fundada a Associação de Futebol de Lisboa, que seria a pioneira das 22 agora existentes. O Campeonato de Lisboa foi, durante muitos anos, a principal prova portuguesa porque reunia os melhores jogadores e clubes como Benfica, Sporting, Belenenses ou Carcavelinhos. Com o futebol a crescer nas duas principais cidades e também no Algarve, no Minho, na Madeira e em tantas outras localidades, mais se acentuava a necessidade de criação de um organismo que coordenasse a actividade em todo o País.

Finalmente a Federação...

Assim, e por iniciativa das três Associações existentes (Lisboa, Porto e Portalegre), é fundada em 31 de Março de 1914 a União Portuguesa de Futebol.Devido à eclosão da I Grande Guerra Mundial (1914-18) com militares portugueses nela envolvidos, este organismo limitou-se praticamente a dar autorização aos jogos entre clubes portugueses e estrangeiros; a realizar jogos entre selecções de Lisboa e do Porto e a oficializar a inscrição de Portugal na FIFA. Só mais tarde, por deliberação do Congresso de 28 de Maio de 1926, a U.P.F. passou a denominar-se Federação Portuguesa de Futebol.

A primeira selecção nacional...

Foi no dia 18 de Dezembro de 1921 que Portugal disputou o seu primeiro desafio internacional.
Ao tempo, um acontecimento. Um jogo internacional nem fazia sentido, porque nem sequer tínhamos uma competição nacional, havia só os Campeonatos Regionais.
O jogo teve naturalmente a Espanha como adversário, não havia facilidade de escolha, mas os espanhóis iam muitos passos à nossa frente na prática de jogos internacionais.
A formação da primeira equipa foi entregue à Comissão Técnica da Associação de Futebol de Lisboa.
Logo à partida nos trabalhos preliminares da escolha dos elementos, não houve entendimento. Levantou-se grande celeuma à volta do afastamento de Alberto Rio e Francisco Pereira, ambos do Belenenses. O irmão daquele último, Artur José Pereira – considerado naquele tempo o nosso melhor futebolista – vestindo, também a camisola azul solidarizando-se com os seus companheiros negou o seu concurso à selecção.
Por outro lado, a Associação de Futebol do Porto, descontente com o critério da escolha, também proibiu os seus jogadores de irem à selecção. Só apareceu um, Artur Augusto, mas, pelos vistos, à revelia.
E assim nasceu, nada bem, como se pode concluir, a “equipa de todos nós”.

O Campeonato de Portugal...

Em 1921 e depois de vários anos a tentar organizar uma competição nacional decidiu-se finalmente organizar o primeiro Campeonato de Portugal. Embora neste ano houvesse campeões no Algarve e Portalegre deliberou-se que apenas os grupos de Lisboa e Porto disputassem o troféu.
Sporting Clube de Portugal e Futebol Clube do Porto enfrentaram-se primeiro no Porto (2-0 para a equipa local), depois em Lisboa (2-1 para o Sporting), em face do empate registado, houve que fazer um sorteio para definir o local, calhou ao Porto, e o jogo disputou-se no Campo do Bessa onde o clube nortenho derrotando por 3 a 1 o seu opositor, conquistou o primeiro campeonato nacional.

O Campeonato das Ligas...

Em 1935 surgem os Campeonatos das Ligas (I e II), sugeridos pelos jornais da época, depois de clamorosa derrota com a Espanha.
Estes torneios foram organizados a título experimental para estudar a sua viabilidade económica, sem prejuízo do Campeonato de Portugal.

A restruturação das provas nacionais...

Em 1938, na comemoração dos Cinquenta Anos do primeiro jogo de futebol em Portugal, o Congresso da Federação Portuguesa de Futebol aprova o quadro de provas que passa a ser o seguinte:

- Campeonato Nacional da I Divisão, que substitui o Campeonato de Portugal.
(Em 1995/96, passou a ser organizado pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional)

- Campeonato Nacional da II Divisão - em 1990/91 passou a designar-se II Divisão “B” - dividido por grupos geográficos)

- Taça de Portugal (limitada aos clubes da I Divisão e alguns da II; mais tarde alargada a todos os participantes nos Campeonatos Nacionais e apurados dos Distritais).

- Campeonato Nacional de Juniores (campeões distritais).

Mais tarde surgem: o Campeonato Nacional da III Divisão (1947/48); a Taça Nacional de Principiantes (1962/63), hoje Juvenis ou Juniores B; Taça Nacional de Iniciados(1974/75), hoje de Juniores C; Taça Nacional de Infantis (1987/88), já extinta; Supertaça “Cândido de Oliveira” (1980/81) e Campeonato Nacional da II Divisão de Honra (1990/91).

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