e participou na fase final do Mundial de 1986 Perfil: Empolgamento e revolta pertenciam às coisas pessoais que não repartia com os outros. Era capaz de incendiar um jogo com o seu futebol brilhante feito de saber, inteligência e equilíbrio; de extrair da plateia os aplausos justificados pelos dotes de artista notável aos quais juntava uma apuradíssima concepção táctica; de referência construtiva da equipa no momento de pôr a máquina brilhar. Tinha, também, o dom do remate fortíssimo, que transformava em sucessivos tiros certeiros capazes de derrubar as muralhas mais compactas erguidas à sua frente, o que fazia em qualquer momento e circunstância. E no entanto, apesar de emitir imenso calor, era um jogador apagado e frio. Não por questões de ordem estética, não para tirar partido disso como factor de surpresa, mas apenas porque nem o futebol alterava a imagem do que era fora dele: um homem triste, metido consigo próprio, que preferia interiormente todas as emoções, incluindo as mais vibrantes. Por todas as razões, António Sousa foi o jogador fascinante. Suportado num talento genético indiscutível — facilmente detectável pela forma como jogava a bola — dimensionou-o pela perfeição com que assimilou todos os princípios do jogo em termos de posicionamento, sentido estratégico e capacidade para entender as contingências da luta. Tornou-se, então, uma das grandes referências do seu tempo, até pela longevidade de uma carreira que por pouco não atingia o número mágico de 500 jogos na I Divisão. Médio de extremo requinte a executar era precioso no modo como punha a equipa a funcionar, responsabilidade à qual acrescentava o perigo no momento de se aproximar da grande área. Pela potência, intuição e certeza do remate o seu conceito de distância fugia ao senso comum: não precisava de se chegar muito perto da baliza para se relacionar com o golo. Nos livres directos, então, tudo podia acontecer, sobretudo na zona mais descaída para a esquerda do ataque — aquela que melhor servia o tiro com o pé direito. Um jeito que o filho Ricardo herdou e aplicou ao pé esquerdo, entrando no século XXI como um dos grandes especialistas de lances de bola parada do futebol português. História: Aos 15 anos o sonho começou a ser realidade: entrou para os juvenis da Sanjoanense. Na época seguinte cumpriria apenas seis meses nos juniores, porque o treinador da equipa principal, Harold Campos, chamou-o para os seniores quando tinha apenas 16 anos. Até 1975 permaneceu no clube da terra, até ao dia em que Fernando Cabrita, então no Beira-Mar, o foi observar. Em Aveiro, Sousa cresceu, tornou-se ídolo, jogou ao lado de Eusébio, esteve um ano na II Divisão e começou a ser alvo da cobiça de muitos clubes: FC Porto, Benfica, Sporting, Belenenses, Vitória de Guimarães e Sporting de Espinho. Carreira: Em 1979 aceitou o convite do FC Porto de José Maria Pedroto. Triunfou logo nas Antas, mas as grandes vitórias tardaram em aparecer. De azul e branco permaneceu até 1984, altura em que aceitou o desafio de jogar dois anos no Sporting. Enquanto esteve em Alvalade, os portistas ganharam os dois títulos e quando regressou à Invicta o campeão foi o Benfica. Acabaria, finalmente, por sagrar-se campeão em 1987/88, sob o comando de Tomislav Ivic, embora o seu currículo com o dragão ao peito seja assinalável, percorrendo por inteiro e em destaque todas as glórias internacionais. Selecção: Na selecção cumpriu, sempre como titular, a totalidade dos encontros efectuados nas fases finais do Euro-84 e do Mundial-86 — só ele e Álvaro Magalhães o conseguiram. Para um jogador de grande regularidade exibicional, de presença constante ao longo da época e de bom rendimento na equipa das quinas, os números finais não lhe fazem toda a justiça: só 27 jogos — o último dos quais já ao serviço do Beira-Mar — e um só golo marcado — um golão, por sinal, à Espanha, no Europeu de 1984, através de espectacular lance em que fez chapéu sublime ao guarda-redes contrário (Arconada). O Fim: No final de 1988/89 foi engolido pela renovação do plantel portista, facto que nunca digeriu bem, até porque Artur Jorge lhe dissera, semanas antes, que contava com ele para a temporada seguinte. Estava a jogar ao seu nível, com frescura e motivação, razão pela qual não aceitou o motivo do afastamento. Regressou então ao Beira-Mar, onde esteve mais quatro épocas, ao longo das quais ainda disputou uma final da Taça de Portugal, com derrota perante o FC Porto (1-3). Em 1993/94 transferiu-se para o Gil Vicente, mas não foi feliz, para acabar na Ovarense (II Divisão). Encetou carreira de Treinador, que cumpriu um trajecto familiar: início na Sanjoanense (1995/97), ao que se seguiu o Beira-Mar, desde Janeiro de 1997 — um longo percurso marcado pela vitória na Taça de Portugal de 1997/98, selada com um golo fantástico do filho Ricardo.
Do livro: 100 Melhores do Futebol Português, da autoria de Rui Dias | |